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sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Apogeu Moderno Sonho


Projeto : APOGEU POÉTICO - MODERNO
Tema : Sonho
Patrono : Florbela Espanca
Acadêmica: Ana Sofia Carvalho
Cadeira : 20

Era uma vez um cristal, uma gaivota e uma rosa....

Esta manhã acordei sozinha numa ilha tão minúscula que os meus pés nus tocavam a água. E o único verde visível era de um cacto rasteiro, filho bastardo de uma semente desértica que o vento caprichoso ali trouxera.
Senti fome, mas nem vislumbre de algo que pudesse assemelhar-se ao mais frugal dos alimentos. Talvez o cato - pensei- mas eram tantos os espinhos que afastei logo a ideia.
Só a infinita vastidão do mar calmo que me rodeava, de água límpida e tão transparente que podia ver-se o fundo de areias claras, exibia a fertilidade intrínseca desse mundo aquático, porém inalcançável ( pelo menos foi assim que senti no momento... ).

Súbito, encarei numa pedra semelhante a um cristal que parecia feita à medida da palma da minha mão e repousava, preguiçosa, mesmo ao meu lado, à distância de um dedo. Peguei nela e senti-a morna e suave como seda, e ao observá-la percebi o brilho intenso que eclodia do seu interior, atraindo inexoravelmente a minha completa atenção.
Parecia que algo vivo se debatia em desespero tentando libertar-se, e quando me quedei naquela estranha ilusão o meu coração disparou descompassadamente mas ao mesmo tempo senti uma imensa paz.

Vinda não sei de onde, surgiu uma gaivota enorme de asas distendidas e imaculadamente brancas, como todo o seu corpo, à excepção da cabeça imponente, de um cinzento claro, e dos olhos incrivelmente azuis. No bico trazia uma rosa vermelha como sangue, a mais bela que eu alguma vez vira.
Contemplava-a fascinada quando a vi alterar a rota do voo e começar a planar em direção a mim, até pousar serenamente na mão com que segurava o cristal cada vez mais resplandecente, como se esse tivesse sido sempre o seu derradeiro propósito.
Fitava-me intensamente, bem no fundo dos meus olhos, ao mesmo tempo que deixou cair no meu colo com extrema delicadeza a magnífica flor, abrindo o bico como num beijo. O ar ficou impregnado de um perfume inebriante que me fez adormecer devagarinho, transportada por aquela exótica fragrância.

Foi o sono mais sereno que dormi em muitos anos.
Quando acordei, estava na minha cama e o sol entrava atrevido pela janela mostrando ter despertado há já muito tempo. Mas sobre a mesa de cabeceira pousavam, inefáveis, uma rosa vermelha que parecia acabada de colher e um cristal fabuloso que refletia por todo o lado a luz matinal anunciando a chegada do novo dia.

ASC ©

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